Sítio em formação e...colaboração.

       Ponte sobre o Angueira - S. Joanico       S. JOANICO - P. Cultural  

 

 4.   O Património Cultural:

4.1 - S. Joanico é uma aldeia de Actores ou de Sapateiros? É da tradição:

” Surradores de Argoselo,

 De S. Joanico os sapateiros.

 Em Vale de Pena carvoeiros

 E de Vilar Seco os 'scrinheiros (In Memórias de Vimioso - Abade de Baçal).

 Mas a que mais enobrecia e caracterizava culturalmente S.Joanico era a sua propensão para a dramatologia : trágica e cómica; desde o Auto de Paixão da Vida de Cristo, - que, apesar dos seus condicionalismos, não ficaria atrás da célebre Obermmergau (Alemanha) - passando, por peças de Gil Vicente, até à expressão de iniciativa pessoal e local, como, por exemplo, esta, segundo consta, atribuída a Firmino Falcão, que eu próprio, quando criança, em ambiente familiar ou em roda de amigos, vi representar...

 "Já se acabou a comédia,

 Não  têm senão desculpar;

 Esperem um bocadico

 Enquanto se faz o jantar.

 

'Inda ontem me zanguei para a mulher

Por não comprar a vitela

Disse-me que quem a quisesse comer

Que a trouxesse na fardela.  

 

 Presunto e chouriços não temos

Que se morreram os porcos no  Verão,

Nem batatas tão pouco

Que se gearam no montão.

 

Também vos dou uma pinga

,Inda tenho as pipas atestadas;

 Os que colheram tanto como eu,

Já as têm bem despejadas.

 

Com sede ninguém se vá,

Seria uma grande asneira;

Quem não quiser ir a casa do tio Preto      

Tem ali bo ribeira.......

Ó rapaziada,

não façais  tamanha asneira!

Dais cabo da cabeça

E do dinheiro da carteira...

......Nesta arte, realização, ensaio e até autoria, é de salientar o grande esforço, empenhamento e até paixão e arte do tão conhecido, popular e animador quer cultural, quer religioso, litúrgico e social, o saudoso tio José Ventura. Toda esta actividade artística se encontra concentrada no que vulgarmente chamam de “Casco”, por ele enriquecido, organizado e guardado; espero que não se tenha dispersado ou perdido, após a sua morte.

4.2 - AS TRADIÇÕES – São, praticamente, as mesmas das outras aldeias do Concelho. Por causas óbvias, perderam-se quase todas. A começar, há já muitos anos, o falar mirandês. O tom do seu modo de falar, que também está a perder, bem denuncia o concelho a que pertence; aquilo a que chamam o falar à “bileira”; os ditongos em “ais” têm um som intermédio com o em “ois”; por exemplo “ para onde vais “ parece ter o som de “ois”, “p,ra onde “bois”; o mesmo se passa com outros ditongos e alguns sons vocálicos. Não sei se infelizmente, o próprio Vimioso já quase não fala assim, também.

A dança dos pauliteiros pelos jovens de S.joanico da altura, ao som da gaita – de – fole do tio Joaquim Curralo, do bombo e da caixa do tio José Pedrão e dos ferrinhos que tanto animava e abrilhantava a festa de S. João, também já pertence ao passado.

Pelo Natal, também se cantavam os Reis, quando esta festividade chegava, cujas letras, sobejamente conhecidas, me dispenso de as transcrever porque tirando uma ou outra adaptação, são as mesmas em todo o Concelho.

No Entrudo, além  das mascaradas comuns, da farinha e das bugalhas espalhadas  pelas casas, apregoavam-se os mais originais e não sei mesmo se os mais acertados casamentos. Os funis e os regadores eram, à época, os melhores altifalantes. Era mais ou menos assim: dois “maduros”, regra geral acompanhados de outros, colocavam-se à distância e apregoavam: “Vamos casar”.  “ E quem?”  “Fulano(a).....”E com quem vem a ser?”_ “Vai a ser...vai a ser... com....(dizia-se o nome), após o que se terminava às gargalhadas:”grá....grá...grá...”

Saliente-se ainda dois costumes, também, em geral, presentes  nas outras aldeias, felizmente desaparecidos: um, o de mendigos ou pobres que andavam de terra em terra, pernoitando em casas, regra geral, já certas. Destes, destaco  a humildade, a dedicação e o espírito de serviço, pedindo sempre para fazer qualquer coisa, como partir lenha, ir à fonte... Tinham também o hábito de ir de porta em porta, e aí rezar, depois de tirar o chapéu, pelas “ benditas almas” e pelas “obrigações” da casa onde pediam. 

Havia outros pedintes – os ciganos -  cujo relacionamento de parte a parte já não era tão bom, bem pelo contrário... Estes, sobretudo as crianças, tinham, por vezes, um  gesto, até de ternura, que não era de oração mas artístico, de troca: “dê-me uma codinha e danço!...”  E as pessoas achavam-lhe graça e até davam...Havia também a outra face oposta: a da maldição, a da imprecação, na retirada, quando não se dava: “uma loba te nasça maldita....” Era dita, evidentemente, sem intenção e recebida sem indignação; tanto assim era que as pessoas, por brincadeira, repetiam esta e a expressão anterior, umas às outras...

    JOGOS TRADICIONAIS: Entre outros, havia os da relha, do ferro, da barra, da pedra ( com umas dezenas de Kilos), jogados por entre as pernas  ou de lado e projectando aqueles a maior distância possível; do fito ou  Cunca ou malha que, regra geral,  se jogavam junto à ribeira e à ponte, a montante, do lado esquerdo, sempre no mesmo local, junto a uma amoreira, sendo bem visíveis - na época -  as covas, onde as pedras caíam e  resvalavam para deitar abaixo o meco ou marco. 

 Trabalhos tradicionais: O linho. A lã. O cultivo e a elaboração... ARTESANATO, Artes  e Ofícios  No passado já bastante remoto, os habitantes, tal como nas outras aldeias, bastavam-se a si próprios nas Artes e Ofícios. Havia ferreiros, carpinteiros, sapateiros, barbeiros, alfaiates, pedreiros, latoeiros, serradores, ferradores, costureiras, taberneiro...Regra geral, todas as famílias faziam o seu pão(fogaça) em casa, pedindo-se de emprestado à vizinha, enquanto não se fazia a fornada. Na Vila, apenas compravam algumas roupas e a mercearia e o tradicional bacalhau  A matança do porco da maioria das pessoas, dava-lhe a carne para todo o ano, bem como a criação de coelhos e aves de capoeira; para ocasiões mais festivas, a vitela, o cabrito, o borrego... Aquela era para as famílias, amigos e vizinhos, vindos até de outras terras, um dia de festa e de convívio que se prolongava pelo Inverno dentro, na retribuição do convite pelo mesmo motivo... A praça do peixe tinha assento no meio da aldeia, mas apenas para alguns amadores da pesca, à cana e à rede... A sardinha, o carapau  e o cânhamo eram comprados à porta, ao sardinheiro que, regra geral, vinha de  Vimioso, havendo famílias que compravam aquela, às caixas.

As peles dos animais, do coelho, da cabra e da ovelha, sobretudo, eram vendidas à porta, aos “peliqueiros” ou “argoseleiros,”, vindos de Argoselo - "Surradores de Argozelo"... que, pelas ruas, em cima dos seus cavalos, ou puxando - os pela  reata,  apregoavam numa voz grossa e cavernosa e com sotaque ou som característico da terra, que  outros povos, por e com graça imitavam: “peles e carniçoilos”. (Estes são um fungo, de forma córnea, que o centeio gera na espiga e que  eram vendidos a bom preço. Deles se extrai uma substância usada na preparação dos curtumes, como preservante ou neutralizante do elemento proteico). O azeite era comprado aos azeiteiros de Carção , que à semelhança dos seus vizinhos  de Argozelo, andavam também pelas ruas. muitas famílias a comprar às caixas.

A roupa, sobretudo para homem, em cortes ou ao metro, a que se chamava pana ou bombazinea  vinha-nos de Espanha, comprada, secretamente, por causa da Guarda Fiscal e dos Carabineiros, aos contrabandistas, que, depois, era trabalhada pelos nossos alfaiates. Também os “cacharros”, as alpercatas, as malgas, as canecas, os pratos de barro e as boinas ou gorras ou cachuchas, as galhetas(tipo de bolacha). Em contrapartida, levavam ovos, trapos, café ... Os contrabandistas, também eles pobres e sofridos, puseram muita mesa, vestiram e calçaram muito pobre, também... (História que ainda está por escrever...mas que já faz parte do plano Municipal -" A Rota do Contrabando")

  4.3 - O RIO ANGUEIRA - São Joanico, apesar de pequenina, tem um património arquitectónico  que eu considero de grande valor. A sua ponte medieval- romana  deveria ser o seu postal de visita do qual faz também parte o Rio Angueira, a que o povo chama vulgarmente de Ribeira.

       O Rio Angueira nasce em Espanha em Al Cruzillo, termo de Alcaniças, província de Zamora, entra em Portugal na freguesia de S. Martinho de Angueira, concelho de Miranda do Douro, passando por outra povoação de nome também Angueira mas esta pertencendo ao concelho de Vimioso; esgueira-se pelo sopé do planalto que ostenta Cerapicos e vem, sorrateiramente, a adormecer no coração de S.Joanico... Assim sendo, faz parte do seu património cultural, a que lhe deve a ponte, a luz, a beleza, graça e até a importância. Às vezes, tenho a impressão que S.Joanico não tem expressado esta consciência; ambas as margens têm que se virar mais para  a sua ponte e para a sua Ribeira...

Património já perdido. Além de faltar ainda valorizar condignamente a ribeira, houve outro matrimónio a ela ligado que, infelizmente, já se perdeu: refiro-me aos moinhos e a um pisão que, no passado, tal como as fontes e as eiras, desempenharam um papel importante na vida da comunidade, a nível familiar, local, económico e social. Outro há para o qual, felizmente, julgo já haver projecto: a recuperação dos açudes que S.Joanico possui de grande profundidade e longitude. E porque não a nora, que noutros tempos, ainda à distância do povoado, já se ouvia o seu chiar ora lento, ora apressado, conforme a andadura do paciente burro que lhe era incutida pela chibata da criança que o tocava ou pela voz gritada à distância do ou da que no meio da horta guiava as augueiras que dela recebiam a água fertilizante. Como está, se não mostrasse o desleixo ou abandono, bem podia servir para ilustrar a capa do "D. Quixote de La Mancha" de Cervantes.

Outro património que não estando ligado à ribeira, o está, como o anterior, à comunidade: estou a lembrar as fráguas, lugar reservado sobretudo a homens adultos que mostrando a sua força, desafiavam a dos adolescentes que garbosamente aceitavam o desafio, constituindo depois o orgulho dos pais ou de quem assistia, espalhando-se esta fama pela aldeia. Também era frequentado pelos mais pequenos que gostavam de "dar ao fole"...

    Há ainda um outro relacionado com o ambiente -  os pombais que lhe davam uma atmosfera airosa, poética, encantatórica... Oxalá eles possam fazer parte "da Rota do Lazer e da Rota dos Pombais" já em Roteiro Turístico.

4.4 - AS EIRAS – Falar deste espaço é lembrar o Verão, as segadas, o acarrejo, as medas, os bornais, a parva, a trilha, a limpa; é recordar a mútua ajuda, a convivência; é falar em sangue, suor e lágrimas; é enobrecer um espaço comunitário, social, numa palavra, humano. São um espaço que não deve se votado ao desprezo ou destinado a outros fins... Também não votado ao abandono, a ser um espaço morto. Antes, ficar bem preservado como sendo um monumento, que não tendo altura física, tem grandeza moral e profundidade de significado; contém sementes que devem ondular novas searas e oferecer novas colheitas aos nossos vindouros...Digno monumento ao trabalho humano – animal, feito com a cumplicidade do esforço, por vezes, bem desumano da parte dos racionais para com os irracionais que o Criador pôs ao seu serviço...

Nas terras piscatórias, é agradável ver em lugares de destaque, um barco, uma rede que outrora foram faina, trabalho, pão, convívio, desavença, solidariedade e também  sangue, suor  e lágrimas... Todavia, às nossas aldeias agrícolas ainda não chegou esta iniciativa: dos monumentos ao trabalho, usando os seus próprios instrumentos. O Recinto da Escola poderia ser um bom local, para uma exposição permanente condigna.

4.5 - A ESCOLA - Durante muitos anos, uma pequena casa que fica na rua que vai do Cruzeiro à igreja, hoje Rua da Igreja, servia de Escola à qual ficou sempre ligada à tão querida e saudosa Professora Dª. Albertina Miranda, ainda hoje lembrada com saudade. Só a partir da década de setenta (?)é que se construiu a nova que fica junto à ponte, do lado de Cabanas. Aquela merecia maior destaque e apresentação...

   4.6 - PESSOAS TÍPICAS -  Todas as terras têm alguns dos seus habitantes que se notabilizam pelas suas característica próprias, que se afastam do viver paradigmático comum, que  têm alguma qualidade, virtude ou defeito físico, moral, social, acontecimentos reais, frases ou expressões próprias, maneiras de falar de andar de vestir... e que, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, são aceites,  estimadas por todos, sem todavia, fugirem à crítica,por vezes mordaz, aos reparos , aos comentários da praça pública. S. Joanico não foge à regra. Aliás, o Concelho com as aldeias que  o constituem, também fazem parte desta regra, apodando  quer aquele, quer cada uma destas por uma alcunha, regra geral, relacionadas com uma actividade, ou característica próprioas. Apenas uma, a que se relaciona com S.Joanico, extraída do elenco que se refere ao Conselho e a todas as suas aldeias:  

De Avelanoso os carvoeiros  

E de Serapicos os raticos;

De São Joanico os sapateiros

E de Vilar Seco os, scrinheiros(7). (Memórias de Vimioso, Abade Baçal)

Desde criança que me lembro de ouvir esses chistes, quadras mordazes, imitações, que me privo de reproduzir com receio de ofender susceptibilidades. Julgo que hoje, já ninguém se deferia ofender, porque já se transformaram em riqueza cultural de S.Joanico e até elogio, admiração pela coragem de, à época, ser diferente e mostram bem o jeito e a arte, o sentido crítico, o humor e a graça dos nossos conterrâneos, que de modo nenhum se devia perder porque algumas relatam factos do quotidiano público.

4.7 - A Casa do Povo deve merecer também o nosso interesse: Aqui gostaria de ver o passado cultural e artístico de S. Joanico: A caixa, o bombo, os ferrinhos, a gaita de foles..., que animavam as festas e as tardes de domingos, os paus e o guarda-roupa dos pauliteiros que ao som daqueles abrilhantavam a festa de S. João. Em primeiro plano, gostaria de ver todo o acervo do tio José Ventura a que chamam "Casco", fotografias, reportagens que por ventura se tivessem feito das múltiplas representações teatrais que  em S. Joanico se realizaram sobretudo do Auto de Paixão da Vida de Cristo. Também uma amostra representativa dos instrumentos de trabalho cujo uso já pertence ao passado: agrícolas,  de artesanato, utensílios de artes e ofícios, tudo o que dignificou e enobreceu a vida dos que nos precederam e hoje nos orgulham - um pequeno museu.

 Se eu morrer, ao ceu hei'dir-me                          
mai la mia gaita, a tocar
e certo é que ao oubir-me,
iran los anjos a beilar

                                        (atribuída a José Prieto Ximeno, Gaiteiro de Rio de Onor, segundo o Dr.Ernesto Veiga de Oliveira)

Bem expressiva e significativa é também  a frase do Tio Joaquim Curralo, de S.Joanico, ouvida pelo Dr. Jorge Lira:"La mié gaita nun yé un strumento, yé un bitcho,"
                           
S.joanico

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